Este salmo davídico se volta para importância da comunhão e
do relacionamento adequado na comunidade. Este salmo também é muito cantado nos
dias de hoje pelos judeus em Jerusalém. Com vimos acima, esse salmo é
pós-exílico, ou seja, foi escrito depois do cativeiro babilônico, que durou de 586
a.C. até 539 a.C.
O
Salmo 133 diz também que a união fraternal é como o orvalho do monte Hermom
quando desce sobre os montes de Sião. O monte Hermom está situado numa região
muito marcada pela humidade por ser cheia de água. Isso faz um contraste com as
regiões desérticas do Sul da Palestina. Portanto, a região do Hermom é marcada
pela prosperidade e por frutificação. Logo, a união que Deus deseja é
acompanhada pela benção da santificação, da prosperidade e da frutificação que
Deus concede a partir dos montes de Sião (ver. 3). O importante é que o Senhor
é quem sustenta isso. É uma benção completa para todos nós.
O Salmo 133 expressa os segredos do
avivamento e da efusão do Espírito Santo, que é o resultado da união dos filhos
de Deus. O óleo (verso 2) e o orvalho (versículo 3) referido no Salmo 133
representa a presença do Espírito Santo no meio de Sua Igreja. É a presença do
Senhor no corpo de Cristo que traz a unidade no coração do homem. O fato de que
o óleo escorre da cabeça para as vestes simboliza o fato de que, quando a
liderança é ungida em primeiro lugar, eles são capazes de transmitir esta unção
ao povo.
Salmo 133.1: Oh! Quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união!
Este verso no original hebraico pode ser traduzido assim de
forma ipsis litteris: “Veja! Como é bom e amável que os irmãos sentem-se juntos”.[1]
A ideia do texto hebraico é de transmitir uma unidade concreta. Todos se sentam
um do lado do outro, ao mesmo tempo. Esta ideia torna-se clara com o uso da
palavra daxAy (yāHad – junto, ao mesmo tempo). O verso 1 é um provérbio sapiencial e retrata a beleza e a
unidade entre os irmãos. O salmista explica essa comunhão com os versos
seguintes, usando dois elementos interessantes: o óleo da unção e o orvalho da
região do monte Hermom.[2]
Salmo 133.2: É como o óleo precioso sobre a cabeçaa, que desce sobre a barbab, a barba de Arãog, e que desce à orla das
suas vestesd.
a. É
como o óleo precioso. Este é o óleo ou
azeite da santa unção, e era “um perfume composto segundo a arte do
perfumista”, Êx 30.22-33. Era produzido dos seguintes produtos: 1. Mirra
: Goma, resina odorífica, medicinal, produzida pelo balsamodendro (Bálsamo,
líquido aromático); 2. Canela aromática: Árvore laurácea de casca odorífica, usada como especiaria; 3.
Cálamo: Planta que exalava um doce cheiro (Ct 4.14), vinha de terras
longínquas (Jr 6.20), da Arábia ou da Índia (Ez 27.19); 4. Cássia. Casca
aromática semelhante à canela, empregada em medicina, vinha da Arábia ou da
Índia (Ez 27.19); 5. Azeite de Oliva. Óleo extraído de azeitonas ou de
outras frutas ou das gorduras de certos animais.
b.
Sobre a barba. Na cultura judaica, a barba
era símbolo de beleza, dignidade e virilidade.
g.
Arão. אַהֲרוֹן (’ahărôn) – “aquele que traz luz”. Filho de Aarão e
Joquebede (Êx 6.20), e irmão mais velho de Moisés e Miriã (Nm 26.59).[3] Foi o
primeiro sumo sacerdote da nação de Israel. Descendia da tribo de Levi (Êx
6.16-20). Nasceu três anos antes de
Moisés, no Egito (Êx 7.7). Servia como boca de Moisés, por ter o dom da
palavra, Êx 4.16,17. Arão morreu com cento e vinte e três anos de idade, no
monte Hor (situado na região de Edom, Nm 20.22; 33.37), Nm 20.24-29; 33.38,39. [4]
d. Orla das suas vestes. A respeito da vestimenta do sumo sacerdote, confira
o texto de Êx 28.1-29.
Salmo 133.3: Como
o orvalhoa
do Hermomb,
que desce sobre os montes de Siãog;
porque ali od- Senhore ordena a benção e a vida para sempre-d.
a. Orvalho. Em hebraico é laX (ṭal) e significa orvalho, chuva fina, névoa noturna,
garoa. Orvalho é um tipo de depósito de gotas de águas resultantes de
condensação de vapor, na superfície de objetos que permanecem ao ar livre
durante a noite. O orvalho forma-se nas noites claras, porque nelas as
superfícies descobertas irradiam calor para a atmosfera. A maior parte dos
objetos, inclusive folhas de capim e pétalas de flores, irradiam calor melhor
que o ar e, como resultado, ficam durante a noite, mais frios que este. A
formação de orvalho é mantida pela difusão de vapor de água.[5]
b. Hermom. Em hebraico é NOwmr;ex (Hermôn) e significa sagrado, um
santuário.
É muito provável que o nome
Hermom tenha se originado devido aos santuários consagrados a Baal, localizados
ali desde os tempos anteriores ao Êxodo (Js 11.27). Baal-Hermom (Jz 3.3) e Baal-Gade (Js 13.5) eram lugares reputados
como locais sagrados pelos habitantes originais de Canaã, e esses lugares
ficavam próximos ao monte Hermom. O monte Hermom recebe outros nomes dentro do
texto bíblico. Em Dt 4.48 é chamado de Siom (NO'yiiOS - Si’ôn – elevado, imponente). Os
amorreus o chamavam de Senir, Dt 3.8,9 (ryinOS; - Senir – montaha de neve). Mas ao
que nos parece, este nome se refere apenas a uma parte da montanha do Hermom
como podemos analisar em Ct 4.8 (cf. 1Cr 5.23). Por fim, os sidônios o chamavam
de Siriom, Dt 3.8,9 (NOyr;OiS - Sîryôn – peitoral).
O Hermom formava a
fronteira Norte de Israel até onde chegaram as conquistas dos hebreus sobre os amorreus,
sob a direção de Moisés e Josué, Dt 3.8,9; Js 11.3,17, 12.15, 13.5,11; 1Cr
5.23. É também o extremo sul da região da Anti-Líbano. O Hermom está entre
2.800 a 3.000 metros acima do nível do mar, suas montanhas tem 32 Km de
comprimentos e três picos , sendo que dois deles são os mais altos da Palestina
ou em sua redondeza. Nele se encontram as nascentes do rio Jordão. A neve nunca
desaparece do cume durante o ano todo, causando orvalhos abundantes em tremendo
contraste com a terra ressequida da região Sul. O seu degelo é uma das
principais fontes alimentadoras do Jordão. Outro fato interessante a respeito
do Hermom é que sua aproximidade de Cesareia de Filipe tem levado alguns
estudiosos a sugerirem que o Hermom é o “alto monte” da Transfiguração (Mt
17.1,9; Mc 9.2,9; Lc 9.28). Cerca de uma semana antes da Transfiguração, o
Senhor esteve na região de Cesareia de Filipe, ao sul do Hermom, e alguns
estudiosos consideram que Ele se dirigiu para o Norte, para as colinas do
Hermom, ao invés de ir para o Sudeste, para o monte Tabor, o local tradicionalmente
aceito como o monte da Transfiguração.[6]
A palavra transfiguração
que aparece tanto Mt 17.2 bem como em Mc 17.2 no texto grego é o vocábulo metemorfw,qh (meterfwqh–
transfigurou-se). Esta palavra é a forma flexionada do verbo metamorfo,w (metamorfow),
de onde vem a nossa palavra metamorfose. Este verbo é polissemântico e
pode significar mudado em forma,
mudança de forma; ser transformado, alterar-se, ser transfigurado. Lucas,
que escreveu sua narrativa do Santo Evangelho para os gregos, não empregou esse
palavra. Ao invés de usar esse verbo, ele preferiu a seguinte expressão: to. ei=doj
tou/ prosw,pou auvtou/ e[teron. Lucas preferiu usar essa expressão para
não sugerir aos leitores gregos as metamorfoses de deuses do panteão helênico.
Sendo assim, Lucas pretende mostrar mediante a inspiração divina do Espírito
Santo (2Pe 1.20,21) que Jesus Cristo é diferente dos deuses adorados pelos
gregos. Veja a tabela com a transliteração e tradução da expressão usada pelo
médico amado (Cl 4.14):[7]
to. ei=doj
tou/ prosw,pou auvtou/ e[teron
|
|||||
to.
|
ei=doj
|
tou´/
|
prosw,pou
|
auvtou/
|
e[teron
|
to
|
eidos
|
tou
|
proswpou
|
autou
|
heteron
|
A
|
Aparência
|
Do
|
Rosto
|
Dele
|
[estava]
diferente (de outro tipo)
|
g. Sião. Em
língua hebraica o nome é NOwFyic (ciôn) e significa “lugar escalvado”. No
Sl 48.2 o monte Sião é identificado como “a
alegria de toda a terra”.
O monte Sião está localizado na região Oriental de Jerusalém, com
aproximadamente 800 metros de altura em relação ao nível do Mediterrâneo. É
muitas vezes identificado com a própria cidade de Jerusalém (Cf. 2Rs 19.21; Sl
126.1; Is 1.8, 10.24). Na antiguidade essa região era povoada pelos Jebuseus,
mas quando Davi assume o controle político-militar de Israel e resolveu
expulsá-los. Com o passar do tempo, Davi ordenou que a arca fosse levada para
Jerusalém, chamada de “cidade de Davi”, 2Sm 6, 1Cr 15. Por este motivo o monte
Sião (monte onde a cidade de Jerusalém está edificada) passou a ser considerado
santo pelos israelitas. Alguns anos depois (aproximadamente quarenta anos
depois), quando Salomão havia assumido o trono de Israel, a arca foi levada
para o Templo. Por isso a cidade de Jerusalém passou a ser chamada de Sião.[8]
d. Porque ali (...) ordena a benção e a vida para sempre. A palavra ali (MAÇAH - šām) refere-se ao monte Sião. Esta benção
(hAkAr;;Gb: - Berākāh) e vida (MyFiyax - Hayîm lit. vidas) é uma bênção complexa que inclui todas
as bênçãos. É prerrogativa de Deus ordenar a bênção, o homem só pode orar por ela.
A bênção ordenada por Deus sobre aqueles que vivem em amor é vida para
sempre, essa é a bênção das bênçãos. Os que vivem em amor não só moram em Deus,
mas também já moram no céu. Da mesma maneira que a perfeição de amor é bem-
aventurança do céu, também o amor sincero é a mais intensa das bênçãos. Os que
vivem em amor e paz devem ter o Deus de amor e de paz com eles agora, e eles
logo devem estar com Deus e para sempre no mundo de amor e paz sem fim. O quão
bom isso é, e quão agradável!
e. Senhor. No texto hebraico aparece a palavra hAwhy ;(yehwā). Na LXX consta a palavra ku,rioj (kurios - Senhor). A
palavra hebraica hAwhy ;é o nome pessoal e
sacrossanto de Deus. É constituído por quatro letras consoantes hwhy (YHWH). Esse nome sagrado tem origem no verbo hAyAh (hāyā) e pode
significar “alguém que existe por si mesmo”. Nos textos de Êx 20.7 e Dt 5.12
consta o mandamento de não pronunciar o nome sacrossanto de Deus em vão. Por se
tratar de um nome impronunciável, os judeus adotaram epítetos para substituírem
a pronúncia original do Tetragrama. Quando os judeus se deparam com o
Tetragrama na leitura do texto hebraico sagrado eles leem אֲדוֹנָי (’ădônāy – Senhor) ou MEKHah (hašēm – lit. o Nome). Existe também a forma híbrida MEHOwdאֲ (’ădôšēm). O termo técnico usado nos
círculos acadêmicos para se referir ao nome sagrado de Deus é Tetragrama: tetragrammaton (latim:
composto de quatro letras), tetragra,mma (tretagramma - quatro letras), tetragra,mmatoj (tetragrammatos - quatro letras). Além dos termos técnicos em
latim e em grego, há também termos técnicos em hebraico moderno e um eles é HArOpGm;ah MEH (šhm ha mepôrāš – Nome inefável). A pronúncia Jeová apareceu no período
entre a Renascença (séc. XV) e a Reforma Protestante (séc. XVI), quando os
cristãos recomeçaram a estudar o hebraico bíblico. Esses estudiosos fizeram a
leitura do Tetragrama como hAwOhy ;(lê-se
’ădônāy) com os
sinais vocálicos da palavra אֲדוֹנָי e criaram a pronúncia yehôwā, originando a leitura Yehowa (Jeová). No entanto, vários hebraístas
posteriores contestaram essa pronúncia. Esta forma foi usada largamente nas
traduções da Bíblia em línguas europeias que foram produzidas desde o século
XVI em diante. A pronúncia mais aceitada pelos estudioso é Yahweh (Iaweh, Iavé
ou Javé) - hewh;ay (yahweh). Esta leitura hipotética é
registrada por alguns Pais da Igreja do oriente.[9]
[Estudo elaborado em Novembro de 2014].
[Estudo elaborado em Novembro de 2014].
Bibliografia.
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Faria Francisco, Ph.D. O Dr. Edson é Pós-Doutorado em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaicas
pela Universidade de São Paulo (setembro de 2011). Título do trabalho de
pós-doutorado: Lexicon Masoreticum: Léxico de Terminologia Massorética
Tiberiense. Os textos podem ser encontrados em seu site http://www.bibliahebraica.com.br.
FRANCISCO,
Edson de F. (2008) Alfabeto hebraico. Texto online.
______. (2008) Nomenclatura
das consoantes e sinais vocálicos. Texto online.
______. (2010) Língua
Hebraica: aspectos históricos e característicos. Texto online.
______. (2014) Tetragrama
e epítetos divinos. Texto online.
[1]
Tradução feita pelo comentarista.
[2]
Cf. Mitchel, Pinto, Metzger, 2002, p.55.
[3]
A Onomatologia (ou Onomástica) é a ciência que estuda os nomes com suas origens
e significados. O antropônimo Miriã vem da língua hebraica (MAyr;im -
mir/yām) e significa sua
rebelião. Quando o Antigo Testamento foi traduzido para o grego, durante os
séculos III e I a.C, o nome hebraico MAyr;im passou a ser escrito em grego dessas
formas: Mari,am/Maríi,a – mariam/maria.
Portanto, tanto o nome Miriã quanto o nome Maria têm a mesma origem linguística
e significado etimológico (cf. Elliger, Rudolph, 1997, p. 264; Strong, 2002,
623).
[4]
Cf. Boyer, 1999, p. 68, 314; Elliger, Rudolph, 1997, p. 94, 1214.
[5]
Cf. Mitchel, Pinto, Metzger, 2002, p. 81; Strong, 2002, p. 378; Kirst et alii,
2008, p. 82.
[6]
Cf. Pffeifer, Vos, Rea, 2007, p. 915-916; Douglas (org.), 2006, p. 585; Davis,
[19-?], p. 296; Strong, 2002, p. 359, 1033, 1077, 1096; Kirst et alii, 2008, p.
7; Harris, Archer, Waltke, 1998, p. 535; Elliger, Rudolph, 1997, p. 289, 294.
[7]
Cf. Gingrish, Danker, 1993, p. 134; Robinson, Pierpont, 2005, p. 69, 123, 179;
Rienecker, Rogers, 1995, p. 37, 84; Souter, 1917, p. 157; Vine, Unger, White
(eds.), 2002, p. 1031; Strong, op. cit., p. 1509; Coenen, Brown (orgs.), 2000,
p. 2548-2551.
[8]
Cf. Elliger, Rudolph, 1997, p. 1214; Boyer, 1999, p. 578; Strong, op. cit., p.
880, 881; Andrade, 1994, p. 60.
[9]
Cf. Gomes, 2013, p. 1; Francisco, 2014, p.4,5; Pfeiffer, Vos, Rea, 2007, p.
544-545; Douglas (org,), 2006, p.
335-336.
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